AfroReggae no Exterior

Colômbia, Inglaterra, Alemanha, Índia, África do Sul, China, Estados Unidos, Canadá. Basta folhear o passaporte dos integrantes dos grupos artísticos do AfroReggae e dos instrutores das oficinas para constatar: não seria exagero dizer que a instituição exporta arte da periferia aliada à tecnologia social para os quatro cantos do planeta.

Mantendo o propósito de conjugar shows com atividades de intercâmbio sociocultural, os integrantes carregam na bagagem, junto com os instrumentos, a metodologia aplicada nas comunidades onde o AfroReggae atua no combate à violência e ao narcotráfico. Em cada jornada, educadores locais são capacitados para que o trabalho com os jovens seja contínuo mesmo sem a presença física dos brasileiros. O êxito da experiência no Brasil se repetiu em todos os países por onde o grupo passou.

“As aulas são exatamente as mesmas, não importa se estamos no Rio, em Londres, Medellín ou Nova Délhi. Nem o idioma é obstáculo. Formamos agentes multiplicadores que irão replicar a tecnologia social do AfroReggae naquela região. Eles são capacitados para dar continuidade ao trabalho mesmo sem a nossa presença física”

Johayne Hildefonso, diretor artístico do Grupo Cultural AfroReggae

COLÔMBIA

Na primeira escala da turnê internacional de Nenhum Motivo Explica a Guerra, em março de 2007, a Banda AfroReggae foi uma das atrações mais aclamadas no Festival Petrobras Musica y Energia, em Bogotá. A performance dos meninos de Vigário contagiou a platéia de mais de 80 mil pessoas. Em abril, na contramão de festas e holofotes, Jose Junior e membros do Departamento de Parcerias Internacionais do GCAR voltaram ao país. Por intermédio de líderes de ongs locais, visitaram Bogotá, Medellín, Apartadó e Cali, para conhecer iniciativas de paz e de redução da violência. Uma equipe da Pindorama Filmes acompanhou a jornada, que deu origem ao documentário O Veneno e o Antídoto

Na ocasião, o GCAR firmou o seu primeiro contrato de apoio internacional. A beneficiada é a banda Son Bathá, formada por jovens da comunidade negra Comuna 13, uma das maiores favelas de Medellín. O grupo foi criado como forma de protesto à violência gerada pelo enfrentamento armado entre as Farcs, os paramilitares e o Exército. O apoio prevê ajuda técnica e financeira e oficinas socioculturais. O intercâmbio cultural inclui a vinda do Son Bathá ao Brasil para conhecer o trabalho desenvolvido pelo AfroReggae nas favelas cariocas.

ALEMANHA

Por aqui começou a turnê no Velho Continente, em junho, com a apresentação da Banda no Festival de Hannover, no Teatro Schauspielhause. A equipe de instrutores chegou à cidade uma semana antes do evento com a missão de ensinar percussão para 30 jovens e policiais, que fariam uma participação especial no show. Destas oficinas nasceu a Orquestra de Policiais de Hannover, que acompanhou a Banda AfroReggae, na versão de Imagine, de John Lennon, no encerramento das duas noites de Festival.

“Aplicamos em Hannover o Projeto Juventude e Polícia, já implementado pelo GCAR em Belo Horizonte. As realidades são diferentes, logo, a origem dos problemas relacionados à violência é diferente. No entanto, a dificuldade de integração entre os jovens e a polícia é a mesma.”

Altair Martins, coordenador das oficinas de percussão e percussionista da Banda AfroReggae

INGLATERRA

Na Inglaterra, o conjunto de ações artístico-sociais recebeu o nome de Favela to The World , tradução do título do livro lançado por Jose Junior (Da favela para o mundo, Ediouro, 2006) que narra a história da instituição. As atividades são realizadas pelo GCAR em parceria com o Barbican Centre e com o People’s Palace Projects e terão continuidade até 2012, ano das Olimpíadas de Londres. O contrato bilateral inclui duas visitas anuais à Inglaterra, para avaliar os resultados das oficinas, a evolução comportamental e artística dos jovens e o desempenho dos multiplicadores, que passam por novas etapas de capacitação.

Na área social, a proposta é colocada em prática por intermédio do People’s Palace Projects, que, tal qual a co-irmã brasileira, utiliza a Arte para desencadear mudanças individuais e sociais em jovens pobres e sem perspectivas. Em Londres, as aulas acontecem no Arcola Theatre, Shoreditch Trust e nas escolas Hackney Free, Stoke Newington e Barbican. Nelas estudam adolescentes que vivem em áreas pobres, muitos deles imigrantes e/ou ligados à criminalidade e ao tráfico de drogas. Em Oxford e Manchester, as oficinas são no Oxford Dragons e no Contact Theatre, respectivamente.

No universo artístico, a interface é o Barbican Centre, com quem a Banda tem o compromisso de lançar um show por ano até 2012. Em 2007, as duas apresentações arrebataram não só a platéia de 1500 pessoas por noite como os severos críticos de música britânicos. O show Nenhum motivo explica a guerra foi agraciado com a cotação máxima de cinco estrelas pela crítica do Jornal The Independent, que classificou a Banda como um “supergrupo” e o show, ”brilhante”. O The Guardian se referiu à performance como “espetacular”. A Banda também fez uma apresentação no Oxford Town Hall, em Oxford, e duas no Contact Theatre, em Manchester.

No dia 22 de setembro de 2008, a banda AfroReggae estreou o espetáculo Favelization, no Barbican. Com cenário e direção de Gringo Cardia, o show mesclava antigos sucessos com músicas inéditas da banda e versões de artistas consagrados do cenário nacional, como Todos estão surdos, de Roberto Carlos, e internacional, como One Love/Steer me up, de Bob Marley

“Percebemos que os professores não tocam nos alunos. Eu não só toquei como chamei a atenção. Ajo da mesma forma que ajo no Brasil. A oficina foi um sucesso”

Johayne Hildefonso, diretor artístico do GCAR e coordenador da Trupe de Teatro AfroReggae

ÍNDIA e CHINA

Muda-se o nome, não a essência. As ações sociais chegam à Índia com o nome Conexão Shiva. Em 2007, com apoio da Fundação Ford, o AfroReggae foi duas vezes ao país; em março, para conhecer a realidade local e, em novembro, para, enfim, realizar os workshops. Em Nizamuddin, a favela mais antiga do mundo, mais de 80 jovens, entre 18 e 25 anos, participaram das oficinas de dança afro, percussão, capoeira e grafite. Enquanto isso, a Banda desembarcava na China para se apresentar no XXI Festival de Música Internacional de Macau.

CONEXÃO SHIVA – POR JOSE JUNIOR

Sabe quando você tem uma ligeira impressão de que já viveu ou viu algumas imagens ou cenas da tua vida, numa outra situação ou momento? Eu vivenciei essa experiência durante a nossa rápida passagem pela Índia (eu, Ève e Johayne). A minha conexão pessoal com a Índia começou em 1992, na época em que eu estava fazendo festas no Centro do Rio. Por acaso, lendo um anúncio de um jornal da Faculdade Estácio de Sá sobre cursos livres e gratuitos no período de férias.

Um dos cursos anunciados chamou a minha atenção: Mitologia Hindu. Eu não tinha noção do que se tratava, mas resolvi me inscrever. Acho que era uma das turmas mais vazias. Só tinha eu, a professora e mais duas alunas. Era um único dia de aula, se não me engano com duração de duas ou três horas. Quando a professora começou a falar do ser superior Brahman, da Trindade Védica formada pelos deuses Brama, Visnu, Shiva, de karma e dharma, algo começava a brotar em mim. Mais do que entender, eu comecei a me conectar com todas elas: nas dez encarnações de Visnu, três delas com muito destaque: Rama, Krsna e Buda, o poder de Shiva como deus da “destruição e da transformação”, a sua força e fúria – nem o próprio filho foi aliviado quando não o reconhece como ser supremo; tem a sua cabeça decepada e em seguida é colocada no seu lugar o de uma cabeça de elefante, criando o mito do deus Ganesha.

Essas e outras histórias fizeram mais do que a minha cabeça, começaram a mudar a minha vida. A primeira manifestação concreta foi quando eu troquei o nome de uma das festas que fiz, Dance Friend Fast, para Loka Govinda – uma homenagem a Krsna que só eu sabia. No lugar onde eu iria fazer a festa estava tendo muitas brigas e eu queria dar uma amenizada. Ninguém entendeu muito a troca ou o significado daquilo. O som que rolava era, geralmente, funk e dance music, mas o funk estava proibido por causa do arrastão na Praia do Arpoador e eu acabei colocando o reggae como repertório principal. A festa estava lotada, mas a galera queria ouvir o pancadão. Logo em seguida fiz uma outra festa, a Rasta Reggae Dancing, já com a participação do Plácido e do Tekko na produção. Logo depois, junto com outras pessoas, fundamos o Jornal AfroReggae Noticias e, sete meses mais tarde, o Grupo Cultural AfroReggae.

Quinze anos depois, essa história volta com força, graças a um convite da Fundação Ford para uma visita à Índia, idealizada pela Denise Dora e organizado pela Roshmi Goswami e pela Sundari Kumar (as duas da FF da Índia). Chegamos em Nova Délhi num sábado, duas da manhã, depois de umas 21 horas de vôo, com conexão em Paris, e mais 8h30m de fuso horário pra frente. A chegada nada teve de espiritual. Para quem é de fora e encara aquele cenário caótico do aeroporto vai considerar tudo uma bagunça e fora de ordem, mas para quem é dali, tudo parecia normal.

A Fundação tinha organizado um carro para ir nos buscar, mas com o atraso do vôo, o motorista foi embora. Então fomos à procura de um guichê pra pegar um táxi “seguro”. A abordagem dos taxistas era o tempo todo. Querendo levar a sua mala, te ajudar e sem falar inglês. Pensando no que rola aqui no Brasil, achamos que era mais prudente, realmente, ir atrás desse guichê – que nunca achávamos. Por mais que estivéssemos acompanhados da nossa Ève Belánger, que fala sete idiomas, indie (a língua local) ela ainda não tinha aprendido. Depois de uns 20 minutos descolamos um táxi e partimos para o hotel.

Para mim, o primeiro e único choque cultural foi o caos urbano e humano presente em qualquer horário pelas ruas. É impactante! Além de uma frota superultrapassada e mal conservada, os motoristas também dirigem muito mal. Em plena madrugada, parecia que estávamos numa segunda-feira, meio dia, no meio da Avenida Rio Branco. Era um festival de buzinas. Parecia que eles tinham acabado de ganhar uma copa do mundo – no caso deles, de cricket. Os carros parecem estar conversando ou brigando por meio da buzina, dos carros, motos, ônibus, caminhões e até bicicletas. É tão irritante a quantidade de vezes que eles buzinam por nada, que se fosse no Rio era papo de sair do carro e rolar uma pancadaria. Detalhe: na Índia, ninguém reclama! Só buzina! O sinal vermelho, para alguns, é roleta russa. No táxi que estávamos, o motorista ultrapassou vários sem diminuir a velocidade. A população da India é de 1 bilhão e 100 milhões de habitantes. A população de Delhi é de 12 milhões.

No domingo encontramos com a Roshmi, da Fundação Ford, e conversamos sobre a agenda. Aproveitamos para conhecer uma feira livre e descobrimos que, por lá, tudo tem que ser negociado. Algo que custe 2 mil rúpias pode virar 500 rúpias numa velocidade impressionante. Tudo é cobrado pela cara de quem pergunta. A arte da negociação era divertida e prazerosa.

Johayne virou uma atração à parte. Com o seu cabelo pontiagudo para cima, amarrado com elásticos coloridos, fez com que fôssemos parados o tempo todo, apontados, fotografados e filmados por câmeras e celulares. Uma foto com Johayne era comemorado como um gol. Os mais despojados queriam tocá-lo e se sentiam contemplados com um simples sorriso. Essa situação nos perseguiu durante toda a viagem e em todos os lugares. Nosso amigo viveu momentos de celebridade.

Uma das preocupações da Roshmi era a de atender também o apelo pelo lado espiritual, mais especifico por Shiva, já que temos uma relação explicita com essa divindade. Shiva virou a “marca” da banda AfroReggae. Shiva é citado com destaque no filme Favela Rising – que relata de maneira primorosa a sinergia entre essa divindade e várias percalços nas nossas vidas, desafios superados, o acidente sofrido pelo Anderson, mediação de conflitos etc. Shiva é o nosso “muso” e fonte de inspiração para entramos em áreas degradadas e destruídas, seja pela miséria, violência ou mesmo pela falta de auto-estima etc. Roshmi acertou ao colocar a sua assessora Sundari para cuidar dessa agenda espiritual. Sundari é uma das pessoas mais espiritualizadas que eu conheci na minha vida e na própria Índia. Virou minha/nossa mestra e guru. O primeiro templo que visitamos foi o de Shiva, no alto de um morro, de onde dava para ver parte da cidade. O templo era pequeno e simples, mas tinha uma energia que, na minha percepção, era serena e meditativa. Em seguida fomos ao templo de Krsna. Aí o bicho pegou! A batida da percussão com a melodia puxada pelo cantor (que quase sempre repete a mesma letra do maha mantra), mais uma coreografia alucinante e que exige muito preparo físico. Você entra num transe e numa corrente coletiva, mas ao mesmo tempo totalmente pessoal. Você é dominado e dominante, tudo ao mesmo tempo. Dá para sentir fluindo de dentro de você “o tambor sagrado” que a cada virada rítmica te joga de um canto pro outro do templo.

Hare Krsna, Hare Krsna

Krsna, Krsna, Hare, Hare

Hare Rama, Hare Rama

Rama, Rama, Hare, Hare

A maioria dos presentes eram jovens. Muitos não vão por devoção, mas para se divertir. Alguns templos na Índia, como os de Krsna, também geram entretenimento, e dos bons. Saímos de alma lavada direto para o hotel e, mesmo cansados, o fuso não nos deixava dormir. Quando o sono batia já estava na hora de levantar. A agenda de reuniões começou na própria segunda-feira na Fundação Ford. Roshmi reuniu vários coordenadores da FF para explicarmos como era o trabalho que desenvolvíamos no Rio e as nossas expectativas com relação à visita e à montagem de um intercâmbio com os grupos locais. Passamos um vídeo de 17 minutos com os SubGrupos e algumas entrevistas e marcamos outros dois encontros com os responsáveis pela área de microcrédito e também com a de educação e arte. Depois fomos no “quintal da Ford”, o Parque Lodi Gardens., um lugar lindo, com um verde espetacular e vários monumentos históricos. Em seguida fomos dar um giro e paramos no mercado de Janpath, especializado em tecidos. Mais uma vez, andar com o Johayne foi difícil e ao mesmo tempo fascinante. O assédio só aumentava. Encerramos a noite no templo de Shiva, já que a segunda-feira é o seu dia de homenagem e veneração.

Na terça fomos conhecer o mausoléu do Rei Humayun. Os caras construíram um bairro inteiro só para guardar e venerar o corpo desse rei muçulmano. Os locais mais ricos e estruturados que eu percebi (posso estar cometendo um erro tremendo) eram os templos e alguns monumentos muçulmanos. A ostentação arquitetônica impressiona bastante. Elas acabam atraindo as pessoas, e os locais estão sempre sendo bastante visitados. Lembrei bastante da Igreja Universal, que em diversos lugares levanta templos com a mesma opulência e acaba ampliando o seu rebanho. Essa “atração arquitetônica” faz sentido. Já os templos ligados ao hinduísmo que visitamos são muito mais simples. Roshmi havia me dito que eles estavam mudando esse conceito e que os novos templos também estavam bastante chamativos e com essa opulência. O de Krsna que nós visitamos não era tão simples. Esse conceito, que eu não tenho muitos argumentos estruturados para discutir, é bem peculiar do lugar. Você vê templos em esquinas de rua que parecem um quarto e sala. Alguns parecem uma “birosca” de esquina. Lembram aqueles pequenos altares que há no interior e em algumas favelas e subúrbios, no meio de uma praça.

Voltamos pra FF para conversamos com a Ravina, da área cultural, e com a Vanita, da área de sociedade e direitos civis. Falamos muito da questão comportamental dos brasileiros e indianos, sexualidade e Bollywood. É impressionante como o cinema faz parte do dia-a-dia de tudo que rola por lá. Elas nos dissseram que, quando os moradores de uma favela têm uma reunião com o poder público, a primeira coisa que eles pedem não é saneamento básico ou obras, o primeiro pedido da lista é um cinema no local. Como todos os filmes produzidos por Bollywood são musicais coreografados (sempre tem uma ou mais cenas que lembram clipes) a indústria fonográfica também é gigantesca. Um único álbum pode vender 20 milhões de cópias de discos. As duas ficaram de vir ao Brasil ainda esse ano. Uma das coisas com a qual nos comprometemos é levá-las a um baile funk no Complexo do Alemão. Já as prevenimos, naturalmente, sobre a “exposição de corpos e ritmo”. No fundo acho que elas vão adorar!

Saímos desse encontro para visitarmos a favela de Ambid Kar Nagar, junto com a Ong Action Índia, que existe há 30 anos. Fomos acompanhados pela fundadora e pela Roshmi. Encontramos um grupo de mulheres que formam um conselho para “julgar” casos de violência contra a mulher. O primeiro passo é ouvir a mulher, que teme que alguém saiba e se sente humilhada. Depois, o conselho envia uma carta oficial, em um papel timbrado que tem a logo com o símbolo da justiça (muitas vezes o homem fica confuso, achando que é da corte suprema oficial). Geralmente eles sugerem que o casal entre em acordo e depois assinem, como se fosse um contrato. Uma das estratégias que elas também usam é pressionar o marido agressor na porta do seu trabalho ou quando ele está em casa, na presença de outras pessoas da vizinhança. Os homens geralmente se sentem constrangidos e acabam receosos de que outras pessoas saibam da violência que eles cometem dentro de casa. A maioria dessas mulheres também não denuncia à policia porque se sentem desprotegidas e sabem que não terão condições de arcar com o sustento da casa, pois uma das formas que os homens têm é de não arcar mais com as despesas se elas pedirem a separação. Elas também nos relataram que, nos julgamentos, elas acabam perdendo. A custódia dos filhos também acaba sendo uma decisão do marido. Depois elas tocaram e cantaram algumas músicas tradicionais da Índia. Encerramos no auge, com o Johayne dançando.

Depois partimos para uma favela ao lado, em Dakshinpuri, para conhecer um grupo de adolescentes que trabalham, usando a cultura, também com a temática da violência doméstica. Eles se autodenominam “transformadores” e não como chamamos aqui no Brasil, de multiplicadores ou educadores. Mas a função é a mesma. Nessas duas comunidades as pessoas tinham a mesma fisionomia e biótipo dos moradores das favelas cariocas; até a arquitetura também parece com a das favelas daqui. A diferença são os trajes que elas usavam. Outra coisa que chamou a atenção é que, ao invés de cães e gatos que vemos soltos por aqui, lá quem predomina são as vacas e os bois, que vemos por todos os lados. Como se trata de um animal sagrado ninguém toca ou tira do lugar. Comer carne bovina é algo impensável.

A pobreza é visível, mas percebe-se que é algo que está em fase crescente. O odor, não só das favelas como das ruas de Delhi, também é estranho, há horas em que o ar é “pesado”. Há muita poeira e poluição por causa da quantidade de automóveis, ônibus e caminhões. Voltando para o grupo, perguntamos para eles como era a violência entre os jovens. Eles falaram que havia algumas gangues, mas as disputas eram por causa de namoradas e marcação de território. Eles não falaram nada sobre armas ou drogas.

Na Índia você percebe que a religião determina o papel de uma pessoa na sociedade. Apesar de ser um dos paises que mais se modernizam no mundo, a maior parte da população segue tradições milenares. Uma delas é a divisão social, o sistema de castas, determinado pela religião há 5 mil anos. Segundo a mitologia hindu, de um corpo de um deus surgiram as quatro castas principais:

* Da cabeça vieram os Brâmanes, que são os nobres, intelectuais e sacerdotes. Todos os gurus são dessa casta.

* Dos braços, os Xátrias, que são os guerreiros.

* As pernas são os Vaixas, os comerciantes e os camponeses.

* E dos pés, os Sudras, que são os serviçais.

* Os que não se enquadram nas castas são os “intocáveis”, a classe mais baixa da Índia.

Esse assunto de castas ainda é um grande tabu na Índia. Ninguém pergunta qual é a casta de ninguém. Até porque os Indianos sabem. Eu perguntava e alguns enrolavam pra responder, mas, pressionando, eles acabam cedendo. O governo proibiu essa classificação, mas não é isso que rola no dia a dia.

Na quarta, a FF convidou alguns grupos de diversas regiões da Índia que têm interesse no tema de mediação de conflitos, ações socioculturais e educação. O grupo que Ford achava que seria o mais interessante era da cidade de Shillong. Eles têm uma musicalidade muito forte na região e conflitos armados. A cidade conseguiu um feito inédito: entrou para o Guinness Book batendo o recorde mundial de percussionistas, com 7.951 pessoas tocando o mesmo ritmo, ao mesmo tempo. Uma outra coisa peculiar é o estilo mais orientalizado que eles têm: olho puxado e “pele amarela”. Quando os vi achei que eram imigrantes chineses, mas são indianos.

Uma figuraça que também conhecemos foi uma autoridade acadêmica em música. Fomos na Universidade de Délhi conhecer o Doutor Kiran, que produz 17 mil eventos por ano em 200 cidades indianas. Paralelamente à universidade ele criou uma instituição chamada Spic McCay para organizar essas ações. Além de professor, é também um grande pesquisador. Falamos do desafio de fazer uma conexão de música com ação social. Foi o que motivou Roshmi a organizar esse intercâmbio. Ele queria que ficássemos mais tempo na Índia. Achava importante rodarmos por diversas cidades e conhecer grupos e músicos diversos. O Johayne não parava de olhar pra ele. Ficou encantando com aquela figura, de uns 60 ou 70 anos. No final ele disse que o professor era a cara do seu avô, que tinha falecido recentemente, e pediu para fazer uma foto com ele. Até o nosso megastar teve um momento de fã na Índia. Saímos de lá e fomos para a exibição do Favela Rising, em Breakreakthough.

A sessão estava lotada e o público presente era de professores e estudantes universitários. Além de um brasileiro, encontramos uma indiana que falava português. Boa parte das perguntas tinham a ver com a relação que temos com Shiva. Duas perguntas foram sobre se éramos contra as drogas, já que, atualmente, a imagem de Shiva estava ligada à maconha pelas novas gerações. Roshmi já tinha me alertado sobre essa questão e que as pessoas que faziam esses comentários não eram pessoas ligadas ao hinduísmo. As minhas respostas foram em cima daquilo que acreditamos e, dentro do nosso conceito, evitei polemizar. Também estava presente um guru/líder espiritual apresentado para Éve e Johayne na noite anterior pela Sundari. O nome dele é Swami Agnivesh. Ele não participou da sabatina de perguntas, mas falou algo que me tocou bastante. Disse que eu fui à Índia “para devolver para os indianos o verdadeiro sentido de Shiva”. Conversando com a Éve, ela me disse que o mestre usa a espiritualidade em obras sociais. Ele também é envolvido na política de luta contra a neo-escravidão, em que as pessoas trabalham de graça para pagar dívidas. Eles trabalham diariamente de 16 a 18 horas e ganham menos de 30 rúpias por dia. O salário mínimo na Índia é de 130 rúpias por dia, o equivalente a seis reais.

Nesses encontros também conhecemos a cantora Vidya e alguns jovens músicos que trabalham com ações sociais, uma delas de reforço escolar. Achei que eles davam aulas de música para os jovens, mas não rolava. Vidya mistura a música clássica com a popular e pensei numa possível parceria artística com ela. Quando mostrei o DVD ?Nenhum motivo explica a guerra?, eles ficaram surpresos algumas músicas e com os ritmos e coreografias da banda AfroReggae. Um outro projeto bastante interessante foi na favela Sundernagri (Sunder = belíssimo e Nagr = lugar). O lugar é, como dizem, cheio de “gente maravilhosa”, mas com uma aparência bastante degradada. O nível de pobreza é enorme, com esgoto passando em frente às residências minúsculas. Mulheres cozinhando na porta de casa, muitas moscas em volta e um cheiro bastante desagradável. Tudo era na rua: da lavagem de roupa à geração de renda, como a confecção de pulseiras. Os poucos bens que essas famílias têm fica embaixo da cama.

A organização que fomos conhecer era a Self Employment Women?s Association, Sewa, criada em 1972 em Gujarat. Está presente em nove estados. Em Sundernagri, desde 1999. O microcrédito é voltado principalmente para as mulheres. São elas que ganham menos, mas na maioria dos casos são quem administram as casas. Isso é um fato em qualquer lugar do mundo. O microcrédito foi criado para poder estruturar e proteger os cidadãos marginalizados, que não têm muito dinheiro e acabam enganados na maioria dos casos. Agora são criados comitês que se reúnem uma vez por mês, escolhem uma coordenadora que vai abrir uma conta, colocam um valor para ser juntado no mês. O valor sempre é muito baixo (menos de 1 real), na maioria dos casos. Se alguém precisar de empréstimo, a pessoa tem que explicar por quê e depois é decidido pelo comitê se o dinheiro será emprestado ou não. Para mandar dinheiro para outras cidades, fazem transferências para contas de outros comitês, por ser mais seguro. Alem disso, Sewa ensina técnicas de como juntar dinheiro e procura exportadores para contratos para as mulheres, em vez de procurar empregos em fábricas, onde, depois de todos os intermediários, recebem muito mal, isso quando recebem. O objetivo é criar empregos nas comunidades. Elas fabricam roupas, fazem bordados, impressão de carteira de identidade, decoram pulseiras de vidro, fabricam ?bindies? (aquilo que as mulheres usam entre os dois olhos, um acessório totalmente estético).

Fizemos uma reunião de avaliação final com Roshmi e Sundari, falando das nossas impressões e também ouvindo as expectativas que elas têm com relação ao nosso trabalho. Elas acham que poderemos influenciar alguns grupos das cidades prioritárias a trabalhar, com cultura e transformação social. As cidades serão: Mombaim, Delhi, Calcutá e Shillong. Elas querem que voltemos em outubro para realizar ações concretas, como oficinas a definir (provavelmente serão de percussão ou circo ou capoeira ou grafite ou teatro ou dança ou todas elas ou nenhuma delas). Levaremos os conceitos e metodologia do que fazemos no nosso dia-a -dia. Tudo vai depender dos próximos encontros com a Denise Dora e depois com a Roshmi, que vem ao Rio em junho. Vai aproveitar pra dar um giro pelos nossos projetos.

Em cada cidade escolhida pela FF já existe alguma iniciativa cultural, portanto, iremos trocar muita coisa. Vamos ficar por um período de 30 dias. A maior parte do tempo será em Shillong. Num terceiro momento, parte desses grupos virão para o Rio ver de perto o nosso trabalho em Vigário Geral, Cantagalo, Parada de Lucas e no Complexo do Alemão. Parte do grupo que for em outubro fará uma agenda paralela em algumas cidades, como Rishikesh, perto do Himalaia, e Varanassi, também no norte da Índia. Essas cidades têm uma espiritualidade muito forte e acreditamos que essa conexão com o que iremos fazer poderá ser importante tanto na Índia como no Brasil, na busca de uma conexão mais profunda. Nesse período terão eventos como o “Festival das 9 noites?, no qual há orações oferecidas para Shri Parvati. Também tem a festa da “Vitória do Bem Sobre o Mal”. Sempre rola muita coisa na Índia em todos os períodos do ano.

Encerramos a nossa estada conhecendo um templo muçulmano em Old Delhi, depois no templo de Krsna. A melhor comida de toda a viagem foi degustada na casa da Sundari, horas antes de embarcarmos de volta para o Brasil. Foi uma viajem de descobertas e com algumas referências. A dedicação de todos, e principalmente da Éve em traduzir 24 horas por dia e ter pesquisado minimamente alguns costumes, foi fundamental. Só tenho a agradecer à Denise e à Roshmi pela insistência para que realizássemos logo essa viajem, e à minha grande amiga e querida guru Sundari, que foi e será sempre fundamental no sucesso dessa e das futuras viagens à Índia.

HariBol!

Junior

EUA e CANADÁ

Em agosto, a Banda AfroReggae realizou sua primeira turnê norte-americana. Começou pela Big Apple, onde o show Nenhum Motivo Explica a Guerra abriu o 5º Petrobras Cinefest, o Festival de Cinema Brasileiro de Nova Iorque, que reuniu dez mil pessoas no Central Park. No dia seguinte, na sede da ONU, foi exibido o documentário Nenhum Motivo Explica a Guerra, de Cacá Diegues, seguido de uma apresentação de quatro percussionistas. Em 20 dias, os músicos de Vigário Geral percorreram outras cinco cidades nos Estados Unidos e uma no Canadá.

PORTUGAL

O AfroReggae foi convidado para participar do Encontro Internacional de Inovação Social, realizado em Lisboa, Portugal, entre os dias 10 e 12 de dezembro de 2008. Washington Rimas, o Feijão, representou a instituição carioca na terrinha e esteve em uma das plenárias “Empowerment (Empoderamento), Igualdade de Gênero e Diversidade para Gerar Inovação Social”, que aconteceu no dia 11. O mediador de conflitos falou sobre sua vida pregressa e sobre a sua trajetória de sucesso e superação dentro do AfroReggae. Feijão conquistou o público e os organizadores do evento, que foi considerado um dos melhores oradores do encontro.

O evento teve como finalidade promover novas soluções para as necessidades sociais na área da formação e do emprego, em articulação com a Estratégia Europeia de Emprego e, em Portugal, o Plano Nacional de Emprego e o Plano Nacional de Ação para a Inclusão. Diversas organizações não governamentais de várias partes do mundo participam para interagir e trocar experiências de seus trabalhos e projetos.

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